pra lá de marrakech


Casablanca, 21 de março de 2011

Marrakech

Viajar é mesmo uma jornada única, diferente pra cada pessoa. Difícil dizer o que nos leva a gostar ou não de algum lugar, pois isso depende das experiências vividas, impressões e acontecimentos específicos que se misturam em nossa memória, construindo uma imagem particular e imprecisa. Se Essaouria inexplicavelmente nos seduziu, com Marrakech foi o contrário. Não ficamos à vontade e encurtamos nosso tempo lá. Injustiça? Talvez. Não temos a pretensão de abraçar o mundo e sabemos que algumas coisas vão ficar mal compreendidas.

Passamos duas noites. Há muitos turistas por todos os lados e muita gente tentando aproveitar-se deles. A Medina é enorme. Se você imagina que com um bom mapa e quem sabe até um GPS não irá se perder, é porque ainda não esteve lá. São infinitas ruelas e becos indistinguíveis, com as atrações escondidas e sem praticamente nenhuma sinalização que possa ajudar. Tampouco há nomes nas ruas ou referências visuais em meio às passagens estreitas. O trânsito de carros, motos, mulas e bicicletas é aparentemente um vale-tudo, disputando espaço com milhares de pedestres.

A Medina é o lar de muita gente e compreende vários bairros. Onde há maior concentração de turistas, torna-se uma gigantesca feira com pequenas lojas ocupando cada espaço disponível. Isso seria ótimo, não fosse a legião de vendedores, pseudo-guias e toda sorte de aproveitadores molestando insistentemente a todos que passam. Cobram por informações que você não pediu ou por produtos que não queria comprar, pressionando e coagindo pra conseguir algum dinheiro. É exageradamente hostil e desconfortável. Por sinal, uma das cenas mais comuns e que se tornaram mais irritantes é o que apelidamos de “bingo dos países”. Não é possível dar 5 passos sem que alguém tente adivinhar de onde você veio: “Espanha?”, “Itália?”, “Inglaterra?”, “Where are you from?”. Partindo da premissa, cujo embasamento lógico é indecifrável, de que caso consigam acertar onde você nasceu, você terá que parar pra ver o que querem oferecer, mesmo que isso seja apenas apontar na direção que você já ia e lhe cobrar por isso. Pode parecer intolerância nossa, mas é absurda a freqüência e animosidade com que isso pode ser feito.

Chororô à parte, Marrakech tem vários pontos para justificar uma visita. A começar pelo coração da Medina, a praça Djemma el-Fna. Um verdadeiro caldeirão, com encantadores de cobras, músicos, vendedores de especiarias e artistas nas mais malucas performances. Se quiser, sente-se em um dos muitos restaurantes pra almoçar, beber um thé a la ment e apreciar o “show” de variedades. Nós optamos por comer mais barato, já que uns dias na cidade podem sair mais caros do que na Europa. Uma curta caminhada saindo da praça leva até a mesquita Ali ben Youssef, infelizmente com a entrada fechada para não-mulçumanos. Ainda fomos ao Badi Palace. Embora não esteja tão bem preservado, é uma boa pedida. Entre outras opções, visite também o Bahia Palace e a Ali ben Youssef Medersa, se conseguir encontrá-los, é claro! E acima de tudo, ande aleatoriamente pela Medina, é de uma riqueza e efervescência cultural incrível. Ficamos hospedamos em um excelente e animado albergue, embora quase impossível de ser localizado sem ajuda. E foi lá que compramos uma viagem de três dias rumo ao deserto do Saara.

Do terraço do nosso albergue, era possível ver a mesquita Ali ben Youssef e as montanhas nevadas ao fundo

Badi Palace

Noite no deserto

É possível ir até o Saara a partir de uma das cidades já na fronteira com o deserto. Contudo, a vantagem de sair em uma excursão a partir de Marrakech é que no caminho existem muitas coisas boas pra ver. O interior do Marrocos guarda surpresas fantásticas, com paisagens alucinantes e cidades improváveis. Nós partimos cedo e, só pra dar uma ideia da diversidade que nos esperava, ainda na primeira manhã atravessamos o calor de planícies verdes, passamos pela neve nas montanhas e almoçamos em uma região bem árida e quase sem vegetação. Mundos completamente diferentes no intervalo de poucas horas.

No caminho, paramos pra curtir as pirambeiras do High Atlas. Era um bom grupo, com um casal australiano louco e animadíssimo, duas amigas inglesas, um casal português bem viajado e com quem conversamos bastante, uma família italiana, um espanhol, uma japonesa, uma holandesa e duas amigas marroquinas. Além do motorista, marroquino também. Por todo lado, é comum ver cidades inteiras com suas casas, hotéis, mesquitas etc. construídos a partir de uma mistura de barro e palha, o que os torna ainda mais únicos. É caso de Ouarzazate, um lugar belíssimo que já foi cenário de alguns filmes hollywoodianos. Uma coisa curiosa, é que esse tipo de construção exige restaurações a cada 4 ou 5 anos e algumas são simplesmente deixadas de lado. Assim, um viajante desavisado poderia facilmente julgar serem ruínas históricas de uma vila esquecida no tempo, o que não passaria de um conjunto de casas abandonadas com uma dúzia de anos de existência… Essas ruínas estão em toda parte.

Parece um gnomo no meio da foto, mas é um traje bem típico entre os homens do Marrocos

Nevava no caminho!

Na maior parte do tempo, a paisagem é árida

A cidade de Ouarzazate

Na primeira noite, dormimos em um hotel no Vale do Dades, na base de uma garganta formada lentamente por um rio de degelo, cercados por paredões de pedra. Com isso, o dia seguinte já começou em meio a um visual deslumbrante. De volta à estrada, parecia que cada paisagem se esforçava pra superar a anterior enquanto nós aplaudíamos de dentro do carro. Um dos destaques fica por conta do Desfiladeiro de Todra. Visitamos também uma típica casa berbere em que se produzem os famosos tapetes marroquinos. Típica em vários sentidos. Desde o modo de produção que deixa o trabalho duro pras mulheres e o comando pros homens até o tino para o comércio. Porque, se tudo parecia rústico, na hora de pagar pelo tapete, eles aceitam também “plastic money”!

E, afinal, chegamos às portas do Saara, na cidade de Merzouga. O que todos nós queríamos ver era o sol se pondo, tingindo as areias de dourado enquanto rumávamos em nossos camelos até o acampamento beduíno em que passaríamos a noite. Mas, não é que o tempo fechou no deserto? A areia não ficou dourada, andar de camelo é assustadoramente desconfortável e, no meio do caminho, a temperatura despencou e começou a chover. Sem céu estrelado pra aproveitar, restou saborear o jantar oferecido em pratos coletivos com cinco ou seis garfos cada e desfrutar do sono nas tendas comunitárias sobre um colchão velho cheio de areia e com a chuva pingando em nossa cabeça. Falando assim, parece que foi ruim. É que ainda não comentamos que quando acordamos ainda de noite, o céu estava limpo. De volta ao lombo dos camelos, vimos o sol nascer e fazer daquilo uma visão extraordinariamente bela. Inesquecível, inigualável!

Desfiladeiro de Todra, paraíso para quem gosta de escaladas

Deserto do Saara

Deixamos a excursão ainda perto do deserto pra pegar um ônibus com destino à Fès. Até então, estávamos usando uns ônibus de turismo, que eram bons por sinal. Dessa vez, tivemos que pegar um ônibus local, como eles chamam. Já que eram apenas uns 400km, pensamos que não seria problema. Não foi bem assim. A viagem tornou uma verdadeira aventura e teste de resistência. Tão longa que não caberia nesse mesmo post. Fica pro próximo!

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9 respostas para pra lá de marrakech

  1. Gabriela disse:

    Olá,
    Encontrei o blog de voces em um site com dicas sobre o Marrocos! Andei lendo seus posts e vendo suas fotos, estao de parabéns!!
    Estou pensando em ir para o Marrocos no final de janeiro de 2012, e me interessei mt por esse passeio que voces fizeram no deserto! Será que voces se lembram o nome do albergue que ficaram ou o nome da agencia que faz esse passeio? E o preco? Mt obrigada!!!

    • Oi, Gabriela!
      Lembramos o nome sim: em Marrakesh ficamos no Equity Point. O lugar é ótimo, mas é bem difícil de achar – vc terá que entrar por uns becos estranhos, mas é seguro. Tenha cuidado apenas com a suposta “ajuda” dos guias mirins. Pra encontrar lá da primeira vez, é bem provável que vc precise de um deles. Combine um preço razoável pra não ser extorquida ao final. E não tenha medo se eles te pressionarem, apenas entre no albergue e não dê mto papo. O Marrocos tem disso, prepare-se!

      Agendamos o passeio de lá. Mas, vc pode fazer isso em praticamente qq lugar em q estiver hospedada na cidade. No final, todos trabalham com as mesmas empresas. Saiu por 95 euros um passeio de três dias, almoços não incluídos. Pra ir apenas ao deserto, tem gente que vai direto pra uma cidade mais próximo e agenda lá. Do nosso ponto de vista, os lugares que passamos no caminho valeram mto à pena!

      Esperamos q ajude, boa viagem!

  2. Graziela Silva disse:

    Se as fotos são lindas, imagino o cenário ao vivo.

  3. valeria coutinho disse:

    Lindas fotos do deserto.

  4. dimitri disse:

    AGORA SIM!!! a viagem começou a ficar mais interessante! sem as obviedades da europa!!! Desbravem o desconhecido! Lindas imagens!

  5. Luciana Souza disse:

    Fred, é a primeira vez que deixo um comentário, mas não é o meu primeiro acesso ao blog. Apaixonada por viagens, estou curtindo muito a de vocês! As fotos estão lindas e os textos muito bem escritos! Divirtam-se! Bjos..

  6. Kátia disse:

    Fotos maravilhosas!!!

  7. Bethânia Andrade disse:

    As fotos estão Fantásticas!Lindas demais!!

    Bjão

    Bethânia & Fred(papai)

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